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8 de set. de 2014

Dra. Fabíola Peixoto Minson explica sobre a Dor do Membro Fantasma


 

 A dor do membro fantasma é uma das mais terríveis e fascinantes de todas as síndromes clínicas dolorosas , e é um dos exemplos mais relevantes de dor crônica. 

A maioria dos amputados menciona a percepção de um membro fantasma, quase imediatamente depois da amputação do membro. 


Ele é geralmente descrito como uma forma precisa do membro real desaparecido.
 
 
Este "fantasma" deve ser produzido pela ausência de impulsos nervosos do membro. 
 
 
Quando um nervo é seccionado, produz uma violenta descarga lesional em todos os tipos de fibras. Esta excitação diminui rapidamente e o nervo seccionado torna-se silencioso, até que novas terminações nervosas comecem a crescer. Isto implica que o sistema nervoso central dá conta da falta de influxo normal.
 
 
Para trazer mais informações sobre esta síndrome para a comunidade do Vida Mais Livre, entrevistamos a Dra. Fabíola Peixoto Minson, coordenadora da equipe de tratamento da dor do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e diretora da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED). Confira a entrevista:
 
 
 
Vida Mais Livre: Para começar a entrevista, acho que é conveniente explicar o que é dor.
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Dor é uma experiência física e emocional desagradável. Essa é a definição da Associação Internacional para Estudo da Dor.
 
 
 
Vida Mais Livre: Existem diversos níveis de dor? Como é feita essa classificação?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Existe a dor aguda, que segue um trauma ou uma cirurgia, e existe a dor crônica, que não está relacionada a uma lesão. A dor crônica pode estar relacionada com dores músculo-esqueléticas, dores neuropáticas, entre outras. A dor do membro fantasma, por exemplo, é uma dor crônica.
 
 
 
Vida Mais Livre: Como uma pessoa leiga consegue saber se ela está no nível agudo ou não da dor?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: A dor aguda é aquela que segue um trauma, um traumatismo ou lesão, e dura alguns dias. Mas ela também não é normal, e pode ser tratada. Então uma dor que tem começo, meio e fim, que decorre de uma lesão, um machucado ou uma cirurgia, é uma dor aguda. Outras dores que, geralmente, duram mais do que três meses, de forma contínua ou intermitente, são consideradas crônicas.
 
 
 
Vida Mais Livre: E com relação à intensidade, é possível classificá-la também?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Em relação à intensidade, sim. A dor pode ser fraca, média ou forte, e usa-se muito uma escala chamada escala numérica. Ela vai de zero a dez, sendo que zero é sem dor nenhuma, um, dois e três é para dor fraca, quatro, cinco e seis para dor média, sete, oito e nove para forte, e dez seria uma dor insuportável. Dor é que a pessoa diz ser, e ocorre quando ela diz sentir. Não existe um “dolorímetro” que vai lá e diz ‘isso é dor’. A pessoa avalia a dor de forma subjetiva. Avalia a característica, a intensidade, a localização, fatores de melhora e fatores de piora.
 
 
Vida Mais Livre: Existe aquela história de que os homens são mais sensíveis à dor do que as mulheres. Isso é verdade?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Não, isso é um mito. As dores são mais frequentes na população de sexo feminino. Não há uma só resposta para isso. São várias causas, entre hormonais, genéticas e estilo de vida.
 
 
 
Vida Mais Livre: E as crianças, são mais sensíveis à dor do que os adultos?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Não. Cada um tem seu tipo de dor, e não existe uma forma de dizer que homem é mais sensível, ou que criança é mais sensível, ou que essa doença dói mais que a outra, porque a dor é muito individual. Cada um sente de um jeito.
 
 
 
Vida Mais Livre: Existem doenças que causam muita dor. Você pode citar algumas, por favor?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Algumas das mais comuns são a hérnia de disco, diabetes, enxaquecas.
 
 
 
Vida Mais Livre - Entrando na questão da Dor do Membro Fantasma, você pode explicar o que é a síndrome do membro fantasma?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: É uma síndrome em que há uma sensação de dor e a sensação de um membro que já não existe. A pessoa tem a sensação de que aquele membro que foi amputado ainda existe, então ela geralmente acha que está ficando louca porque, por exemplo, não tem a perna, mas sente dor no dedinho.
 
 
 
Vida Mais Livre: E por que isso acontece?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: É como se o nosso organismo tivesse uma memória. Mas não é uma memória na cabeça, mas na medula. Então o nervo, de forma desregulada, leva a informação de dor daquele membro que não existe para a medula, e fica como se fosse gravado.
 
 
 
Vida Mais Livre: Isso acontece com todas as pessoas que amputam algum membro?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Não, só com algumas.
 
 
 
Vida Mais Livre: Qual a porcentagem de pessoas que sofrem com está síndrome?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Normalmente, a incidência é maior entre aquelas pessoas que sofrem mais dores agudas, ou seja, que tiveram uma amputação traumatizante, com muita dor no período pós-operatório de uma amputação. Isso serve tanto para o traumatismo da amputação como para o não tratamento da dor na fase aguda. No geral, cerca de 30% das pessoas com membros amputados apresentam sintomas da síndrome.
 
 
 
Vida Mais Livre: E por quanto tempo a pessoa costuma sentir essa dor?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Às vezes por mais de um ano.
 
 
 
Vida Mais Livre: E qual é a intensidade dessa dor?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Pode variar desde leve até intensa. Na escala numérica que eu mencionei anteriormente, varia de 1 a 10.
 
 
 
Vida Mais Livre: Essa síndrome ocorre com mais frequência após a amputação de algum membro específico?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Não. Ela pode ocorrer em um membro específico, ou pode ocorrer de você ter dois membros amputados e, em um deles, você ter o membro fantasma. Não existe uma regra. Não há uma relação de causa/efeito.
 
 
 
Vida Mais Livre: E qual o tratamento mais indicado para essa pessoas?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Existem medicamentos específicos para essas dores, que são chamadas dores neuropáticas, que são dores que vêm dos nervos. Muitas vezes, as pessoas acham que vão tomar um anti-inflamatório ou um analgésico comum e que isso vai resolver, mas não. São medicamentos específicos, como anticonvulsivantes, antidepressivos, ou outros medicamentos que agem no sistema nervoso central.
 
 
 
Vida Mais Livre: E qual é o médico mais apto para prescrever esse tratamento?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Médicos com especialização no tratamento de dor, que é uma subespecialidade de neurologistas e anestesiologistas, por exemplo.
 
 
 
Vida Mais Livre: É recomendável o tratamento associado com psicólogos ou psiquiatras?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Também. A equipe para este tratamento é multidisciplinar.
 
 
 
Vida Mais Livre: Após o tratamento, as pessoas podem voltar sentir essa dor no membro?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: O tratamento não é para cura, mas para controle. Então é muito importante a pessoa ter essa ideia, porque às vezes, ela pode ter dor e continuar fazendo suas coisas, ou às vezes é melhor não ter dor porque ela vai render melhor nas suas atividades.
 
 
 
Vida Mais Livre: Falando um pouco mais sobre a questão das pessoas com deficiência em geral, existe mais alguma recomendação para evitar a dor para essas pessoas?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Existem várias coisas para ajudar a prevenção, como a reabilitação precoce. Exercícios bem orientados, numa fase precoce, podem prevenir a dor do membro fantasma. Outra coisa é não achar que a dor é normal. Muitas vezes, quando a pessoa vem até o médico, a dor já está num estágio muito avançado, o que pode prolongar e dificultar o tratamento e exigir mais medicamentos. Quando o tratamento começa numa fase precoce, a chance de sucesso é maior.
 
 
 
Vida Mais Livre: Gostaria de comentar mais alguma coisa sobre a Dor do Membro Fantasma?
 
Dra. Fabíola Peixoto Minson: Acho que o mais importante a gente abordou, que o tratamento é feito por uma equipe multidisciplinar, com fisioterapeuta, psicólogo e o médico especialista em tratamento de dor, todos atuando em conjunto, com a participação do paciente
 
 
 
Reportagem: Daniel Limas e Marco Petucco Jr.
 
 
Fonte: Vida Mais Livre 


27 de fev. de 2014

'No Brasil, as pessoas não se acostumam nunca com um cadeirante', diz a estilista Michele Simões

Michele Simões está em uma cadeira de rodas



As últimas imagens registradas na mente da estilista Michele Simões, 31 anos, antes do acidente que sofreu em 2006, são de uma noite divertida na balada, ao lado da irmã. 


Na hora de ir embora, Michele deitou no banco de trás do carro e dormiu. Um breve piscar de olhos que mudou completamente a vida da jovem, na época com 24 anos, recém-formada na faculdade e que há dois meses tentava a vida em São Paulo. 


“Não conseguia ver muita coisa, acho que por causa da pancada. Perguntei para a minha irmã o que tinha acontecido, pois não conseguia levantar, nem mexer as pernas. Ela pediu para eu ficar calma, que havíamos batido o carro. Fiquei desesperada porque já sabia que havia ficado paraplégica”.
 

A lesão na coluna de Michele não só impede os movimentos das pernas como afeta a parte torácica e compromete o equilíbrio de tronco. Nem por isso ela desistiu de realizar um de seus sonhos, interrompido na época do acidente: no final de 2013 ficou três meses nos Estados Unidos vivendo como intercambista. E de sua experiência fora do país nasceu o blog “Guia do Viajante Cadeirante, uma das únicas páginas da web dedicadas ao tema: 


“como não achei nada na web que pudesse me ajudar, resolvi compartilhar tudo que vivi de bom e de ruim para facilitar a vida de outros cadeirantes”, explica. Durante a conversa, Michele falou de suas descobertas e surpresas durante a viagem, o relacionamento com o namorado, seus próximos projetos e desejos para as mulheres cadeirantes:


 

Marie Claire: Como se sentiu quando recebeu a notícia de que realmente estava paraplégica?

Michele Simões: eu já tinha certeza da minha situação dentro do carro, pois não conseguia mexer as pernas. Foi um acidente bem grave, fiquei três meses internada. Quando confirmaram a notícia, fiquei desesperada, é claro, mas nunca pensei que minha vida tinha acabado ali. Sempre fui muito à luta, naquele momento não seria diferente. Sempre acreditei e ainda acredito que posso voltar a andar. Não sou muito conformada com o que as pessoas dizem, o que posso ser ou não. E isso ajuda muito.
 
M.C.: Nessa época já namorava?
 
 M.S.: não. Na verdade, já conhecia o Thiago, meu atual namorado. Nós havíamos saído algumas vezes antes do acidente, mas tínhamos decidido que o melhor era ficar só na amizade mesmo. Ele era amigo do namorado da minha irmã na época e, assim que rolou o acidente, foi correndo para o hospital. Foi a primeira pessoa a ficar comigo lá, me acalmou. Durante os três meses que fiquei internada, não deixou de me ver uma vez. Aí, um dia, ele aproveitou que não tinha ninguém no quarto para se declarar. Perguntou se eu achava mesmo que não íamos dar certo, que ele queria namorar porque estava apaixonado. A minha cabeça estava um turbilhão com tudo que estava vivendo. Eu gostava dele, mas não sabia como seria a minha vida e ficava encanada com corpo, vaidade. Mas resolvi seguir o conselho da minha mãe e tentar. Estamos juntos até hoje, a gente é muito parceiro, ele está sempre do meu lado. Até decidiu ir comigo no intercâmbio! (risos)
 

M.C.: Quando decidiu fazer a viagem?
 
M.S.: era uma vontade antiga. Quando me mudei de Rio Claro para São Paulo, antes do acidente, a ideia era ganhar experiência na minha profissão e juntar dinheiro para morar fora. Depois que tudo aconteceu, tive que adiar. Procurei uma agência no ano passado e eles me informaram que Boston, nos Estados Unidos, era uma cidade com muita acessibilidade. Lá havia uma escola que tinha convênio com um hotel e que eles topavam ser responsáveis por minha estadia, já que não tinha conseguido nenhuma casa de família para me receber. Decidi arriscar e foi ótimo! Embarquei em agosto e deu tudo certo. A cidade, apesar de ter uma arquitetura muito antiga, permite que os cadeirantes sejam muito independentes. Eu ia sozinha para todos os lugares, desde escola e lavanderia até prédios históricos. Lá eu me sentia parte da sociedade de novo.

M.C. E o blog, nasceu quando?
 

M.S.: sempre foi muito difícil encontrar referências na internet. Em 2006, tudo era muito mais aterrorizante, as informações eram raras. Era aquela coisa: você está na cadeira, não vai conseguir fazer nada. Pesquisei muito e só achei um blog de uma cadeirante que havia morado fora do país. Entrei em contato com ela, que nunca me respondeu. Decidi então criar a minha própria página na web para contar tudo que vivia de bom e de ruim e, desta forma, ajudar um próximo cadeirante que desejasse viajar. Lá tem de tudo: desde usar o banheiro do avião, até transportar a cadeira e transitar pela cidade.
 

M.C.: Qual foi sua maior dificuldade durante a temporada fora de casa?
 

M.S.: meu medo era o principal obstáculo. Fiquei sete anos aprisionada, sem sair ou fazer nada sozinha. Por isso, quando meu namorado decidiu ir junto eu avisei que queria ter essa experiência para ver se eu era capaz de me virar. No primeiro dia de aula, fui sozinha, peguei metrô, estava tremendo. Parecia uma criança indo pela primeira vez para a escola (risos). Só pensava “e se eu cair?”. Mas depois tomei gosto pela experiência e vi que era capaz. As inseguranças acabaram. A ideia era ficar só dois meses, mas me maravilhei tanto com a independência que tinha na cidade, que estiquei a estadia por mais um mês. Por meio do blog, conheci uma brasileira, também cadeirante, que mora em Boston e ela me ofereceu para ficar na casa dela. Ela tem quatro filhos e por conta das responsabilidades do dia a dia, não sai muito de casa. Então, resolvi apresentar a vida em Boston para ela (risos). Ensinei a pegar metrô, coisa que ela nunca tinha feito, fomos ao médico juntas. Foi uma aventura!
 

M.C.: O que mais te surpreendeu?
 

M.S.: A minha visão sobre mim. Voltei me sentindo muito mais segura e com muito mais vontade de melhorar as coisas. Durante o tempo que fiquei lá e até hoje recebo muitos e-mails, de gente que também é cadeirante e percebe que a vida não acabou. Percebi que posso ajudar.
 

M.C.: Qual foi a principal diferença da vida nos Estados Unidos e aqui no Brasil?
 


M.S.: lá fora não tinha tanto esse olhar de piedade, de te enxergar como como um total incapacitado. As crianças só vão para escolas especiais em última instância, então estão todos acostumados com o diferente. Aqui no Brasil acontece o contrário. Na volta de Boston, no aeroporto mesmo, notei que já tinha muita gente me olhando. Tinha esquecido disso. Brinco com meu namorado às vezes: olha lá, vai cair uma lágrima daqui cinco minutos (risos). Não é uma coisa que atrapalha, mas quando entrei nesse universo, me sentia constrangida. Logo depois que sofri o acidente, fui ao shopping e virei o centro das atenções. As pessoas não se acostumam nunca com um cadeirante, é incrível. Outra coisa: nos Estados Unidos tinha uma vida normal, foi uma libertação. Eu me sentia parte da sociedade porque tudo é muito acessível. Fui para Nova York sozinha de trem, sem nenhum problema. Aqui não consigo sair na minha rua, tudo tenho que fazer de carro, ligar antes para saber se há acessibilidade para deficientes e pedir para alguém me carregar.
 

M.C.: O que pretende fazer com o blog agora que voltou?
 
M.S.: vou dar continuidade, com dicas de passeios e lugares interessantes que tenham acesso aos cadeirantes em São Paulo. Já aprendi a nadar e velejar, tudo de graça. Quero incentivar as pessoas nessa área do esporte porque é onde a gente liberta o nosso corpo. Estou procurando parcerias, mas o que dá para eu fazer, eu faço. Já está encaminhado um projeto com uma escola de mergulho, devo fazer o curso e depois o mergulho adaptado nos próximos meses. Também fui atrás do paraquedismo para cadeirantes, mas ouvi coisas absurdas como “não tenho interesse nessa sua ideia porque é muito complicado”. É a vida, estou indo à luta. Minha proposta é procurar caminhos, provar que é possível mudar e mostrar que é possível sair de casa.
 

M.C.: No dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. O que você acha que precisa mudar no mundo para que ele seja um lugar melhor para as mulheres?
 
M.S.: precisamos aceitar melhor a diversidade e ter consciência que são elas que nos completam. Temos que parar de dividir o lado A do lado B. Como cadeirante, percebo que a a sociedade brasileira não está preparada para lidar com os deficientes. As pessoas nos enxergam como seres de outro mundo. É claro que temos nossas limitações, mas nem por isso somos menos. Essa visão deveria mudar.



Fonte: Marie Claire



24 de mai. de 2013

Marcelo Yuka, ex Rappa, lança DVD com audiodescrição e legendas

Marcelo Yuka num estúdio
Yuka no caminho das setas, documentário sobre o ex-integrante do Rappa, será lançado em DVD no dia 3 de junho, após exibições em festivais e salas de cinema desde 2012. 

O foco é a vida do músico após sair do grupo, em 2001. Um ano antes, ele ficou paraplégico após ser baleado em um assalto no Rio. 

Desentendimentos que levaram à saída de Yuka do Rappa são mostrados. Foram gravadas "mais de 10 horas de depoimentos" dos músicos do Rappa, conta ao G1 a diretora Daniela Broitman.

Em entrevista ao G1 publicada no dia 15 de maio, Marcelo Falcão, cantor do Rappa, disse: “Fazer filme falando mal, criar polemicazinha, é feio, injusto. Ainda mais na situação em que ele está (...). 

Se essa diretora que fez o documentário fosse educada, como fomos com ela, botaria na íntegra no YouTube o que cada um do Rappa falou”.


Daniela Broitman responde aos comentários de Falcão sobre o filme:  “Eu fiz um longa-metragem para cinema e para TV. Não é meu dever colocar depoimentos no YouTube. E também não seria 'educado', um termo que ele usou. Pelo contrário. Foi minha educação e ética que me fizeram excluir alguns trechos com ofensas e agressões entre eles”, diz a cineasta, paulista radicada no Rio, na entrevista abaixo.


A diretora não acredita em reconciliação profissional da banda com Yuka. "Não que não possa perdoar, talvez até tenha perdoado. Mas voltar a ser do Rappa, isso não." A banda lança em agosto seu primeiro disco de inéditas em cinco anos, que inclui a já divulgada faixa "Anjos".

G1 - O documentário tem uma discussão bastante aberta sobre os motivos da saída do Yuka no Rappa. Como você, como diretora, chegou a este resultado?
 
Daniela Broitman - Nas entrevistas que eles me concederam, cada um falou por cerca de duas horas. O Falcão falou por quase três. Foram mais de 10 horas de depoimento, inclusive do Yuka. Eu pedi que todas fossem transcritas. Durante semanas me debrucei sobre elas e cheguei a editar diversas vezes no papel. Com esse material eu queria chegar numa sequencia que fosse clara, justa e mais objetiva possível. E principalmente que não fosse apelativa nem ofensiva. Tinha que condensar todas essas falas e sentimentos em poucos minutos. O filme não era sobre a separação da banda, sim sobre a transformação na vida do Yuka desde que ele foi baleado. Foi um trabalho árduo.

 

G1 - Por que você resolveu fazer um filme sobre o Yuka?
 
Daniela Broitman - O Yuka é um artista, poeta, músico, ativista, um cidadão que está lutando pela melhoria de qualidade da vida no Rio, principalmente das minorias. Ele tem ideais e propósitos muito similares aos meus. Além de a história ser interessante e ele ser carismático, achava que precisava ser contada. Abre discussões muito pertinentes da atualidade. Questões sociais, de direitos humanos, segurança pública, música, direitos autorais, casamento, amor, até as células troncos, tema que não tinha visto ainda, e achava importante.

 

G1 - Como será o lançamento do DVD?
 
Daniela Broitman - Vai ser uma conquista grande, pois conseguimos fazer audiodescrição” para pessoas com deficiência visual ou cegos. E resolvi incluir legendas em português, para que pessoas com problemas de audição possam ler as cenas. E outra coisa do DVD é que vai ter um “making of” inédito, que não passou na TV, não está em nenhum lugar. Tem falas muito interessantes do Yuka sobre o processo de fazer o filme, o incômodo dele ao ser filmado, umas cenas bem legais.

G1 - O que achou da repercussão até agora?
 
Daniela Broitman - Pelos depoimentos que recebemos do público, matérias e críticas na imprensa, estou muito satisfeita com o resultado do filme e a sequência do Rappa em particular. Porque tem fãs que saíram do cinema dizendo que o Falcão e o Xandão estão certos, que o grupo precisava continuar, pagar suas contas, não podiam ficar esperando ele se recuperar. E outros que falaram que o Falcão foi para um lado totalmente comercial, que não condizia os preceitos do Rappa, ou do Yuka, e por isso a banda acabou. Isso mostra que cada um pode chegar à própria conclusão. Parece-me que a sequência está bem equilibrada e dando voz a todos os pontos de vista. Queria dizer ao Falcão que, apesar das inúmeras solicitações de jornalistas para que eu contasse tudo o que eu ouvi nas entrevistas, foi justamente pela minha ética e educação que eu me mantive calada, e acho que ele deveria aprender a fazer o mesmo.
 

G1 - Você acha que existe alguma possibilidade de reconciliação entre o Yuka e o Falcão?
 
Daniela Broitman - Na minha opinião, eu acho que não, pelo que eu conheço do Yuka. Não que não possa perdoar, talvez até tenha perdoado. Mas voltar a ser do Rappa, isso não.

9 de ago. de 2012

O desenhista Mauricio de Sousa fala sobre a criação de personagens com deficiências

Mauricio de Sousa está ao lado de um desenho do personagem Bidu


Mauricio de Sousa é criador de histórias e de personagens que divertem, educam e inspiram a imaginação de adultos e crianças há mais de 50 anos. Em 1959, enquanto era repórter policial no Jornal Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), criou seu primeiro personagem, o cãozinho Bidu. A partir de uma série de tiras em quadrinhos com Bidu e Franjinha (o dono do cachorro), publicadas semanalmente na Folha da Manhã, Mauricio de Sousa iniciou sua carreira.

Nos anos seguintes, Mauricio criou mais tiras, outros tabloides e diversos personagens - Cebolinha, Piteco, Chico Bento, Penadinho, Horácio, Raposão, Astronauta, etc. Até que, em 1970, lançou a revista da Mônica, com tiragem de 200 mil exemplares, pela Editora Abril. Hoje, entre quadrinhos e tiras de jornais, suas criações chegam a cerca de 30 países. Entre as revistas de histórias em quadrinhos mais vendidas do País, dez são de Mauricio de Sousa – atualmente, suas revistas respondem por 86% das vendas no mercado brasileiro.

O que poucos sabem é que, além da Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão, Bidu e companhia, este jornalista e cartunista também criou alguns personagens para homenagear pessoas com deficiência e mostrar, por meio das histórias, um pouco do universo desse público, contribuindo para a educação e inclusão. Luca, um garoto cadeirante, e Dorinha, uma menina com deficiência visual, inspirada na Dorina Nowill, são os dois exemplos mais marcantes.


Para conhecer um pouco melhor sobre seu trabalho, confira a entrevista com o desenhista Mauricio de Sousa feita por Daniel Limas reporter do  site Vida Mais Livre!

Vida Mais Livre: Quando e por que surgiu o interesse por personagens com algum tipo de deficiência?

Mauricio de Sousa: A Turma da Mônica é um grupo de personagens que vivem e agem como crianças normais, como nossos filhos ou conhecidos. Todos nós temos amigos com algum tipo de deficiência e convivemos harmônica e dinamicamente. Aprendemos as regras da inclusão aí.
Consequentemente, não poderíamos deixar de apresentar, no universo dos nossos personagens, amiguinhos da turma que também tivessem algum tipo de deficiência. Até acho que demorei muito para perceber esse vazio nas nossas histórias.

Vida Mais Livre: Você se recorda da situação em que teve a ideia de criar o primeiro desses personagens?

Mauricio de Sousa: Acho que foi quando criamos uma história onde um novo amiguinho da turma surgia de muletas. Ele participou de uma ou duas histórias, mas depois sumiu. Ficou a necessidade de mantermos esse tipo de convívio. Posteriormente, fui buscar um cadeirante para preencher o espaço.

ImagemVida Mais Livre: Conte um pouco sobre o processo de criação da personagem Dorinha.

Mauricio de Sousa: Quando pensei em criar uma menina cega, busquei uma referência e me veio a figura de Dorina Nowill, da Fundação do mesmo nome. Dorina, líder, de inteligência brilhante, sem preconceitos (para com os videntes), elegante, preocupada com a causa de mostrar caminhos aos cegos. Tirei daí tudo da Dorinha.

Vida Mais Livre: Há uma frequência para ela entrar nas histórias?

Mauricio de Sousa: Não. As histórias fluem e, quando um tema permite, ela entra.

Vida Mais Livre: Qual foi a repercussão entre as crianças?

Mauricio de Sousa: Das melhores. Principalmente, quando a Dorinha, como personagem vivo, no antigo Parque da Mônica, aparecia. Daí era um auê. Todas as crianças se aproximavam dela para perguntar sobre seus hábitos, como fazia isso, como resolvia aquilo. E nossa artista que dava vida à Dorinha estava sempre muito bem preparada para falar como uma deficiente bem resolvida.

Vida Mais Livre: Você também criou o Luca, que é cadeirante. Como ele foi criado? Foi inspirado em alguém, assim como a Dorinha?

Mauricio de Sousa: Para criar o Luca, conversei com os atletas paraolímpicos, o que foi, para mim, uma descoberta e uma alegria. Eles são muito bem resolvidos, também. Entusiasmados, alegres, espertos, inteligentes, com o moral lá em cima. Foi fácil transpor esse clima para o personagem, que continua acontecendo muito fortemente nas nossas histórias, a ponto de a Mônica, nos quadrinhos, estar meio de asinha caída para o Luca.

Vida Mais Livre: E, novamente, qual foi a reação das crianças?

Mauricio de Sousa: Mais uma vez, a curiosidade da criançada, mais sua ousadia, fizeram do Luca um repositório de informações sobre o que é e como é fazer tudo a bordo de uma cadeira de rodas.

Vida Mais Livre: Além da Dorinha e do Luca, há também o André, com autismo, e uma menina com Síndrome de Down, correto? Conte um pouco mais sobre estes personagens.

Mauricio de Sousa: O André nasceu de um estudo que fizemos para uma campanha. Saiu uma revistinha muito gostosa, que serviu e serve para muita gente entender um pouco melhor o autismo e suas diversas manifestações. Já a menina com down é mais recente, pouco conhecida e ainda não suficientemente utilizada nas histórias. Está ainda em fase de estudos, devido à variação de graduações que o Down apresenta. Ainda estou buscando em que nivel está a menina.

Vida Mais Livre: Além dos gibis, esses personagens com deficiência farão parte de DVDs, vídeos educativos, algum projeto especial, etc.?

Mauricio de Sousa: Todo o material educacional que produzimos e que estamos planejando terá a participação desses personagens, sempre com mostras de como vivem numa comunidade onde se instalou a inclusão.
Imagem 
Vida Mais Livre: Há casos de pessoas com deficiência em sua família ou amigos próximos?

Mauricio de Sousa: Sempre há em todas as famílias. Desde criança, até os idosos, no final de suas energias, todos tivemos contato com deficientes. Faltava é a conscientização que agora se percebe.

Vida Mais Livre: E na sua empresa, há muitos empregados com deficiência? Como vocês lidam com a inclusão?

Mauricio de Sousa: Há alguns, sim. Numa convivência onde a gente até se esquece que um ou outro tem alguma limitação. Porque, como sempre, eles rompem os limites. E nos integramos.






Fonte:http://vidamaislivre.com.br/especiais/materia.php?id=5328&/o_desenhista_mauricio_de_sousa_fala_sobre_a_criacao_de_personagens_com_deficiencias