Os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, que serão disputados semanas
depois dos Jogos Olímpicos, devem contribuir para modificar a percepção
que a sociedade tem das pessoas com deficiência – estimou o presidente
do Comitê Paralímpico Brasileiro, Andrew Parsons.
A 100 dias do evento (que acontece de 7 a 18 de setembro), o
responsável – que também é vice-presidente do Comitê Paralímpico
Internacional (CPI) – reconheceu à Agence France-Presse (AFP) a
dificuldade de encher os estádios e defendeu que a inclusão social é
fundamental para as pessoas com deficiência no Brasil e na América
Latina.
PERGUNTA: O CPI tem mostrado preocupação com as fracas vendas
de ingressos para os Jogos Paralímpicos do Rio. Como se pode reverter
isso?
RESPOSTA: Devemos tomar mais iniciativas em termos de
comunicação, em particular durante o período de transição (entre os
Jogos Olímpicos e Paralímpicos). Temos uma forte dinâmica graças à rota
da tocha olímpica e, depois, os Jogos. Mas devemos procurar escolas e
igrejas, assim como outras regiões diferentes do Rio. Os espectadores
dos Paralímpicos não serão estrangeiros, e sim brasileiros. Temos mais
meios do que nunca e uma imagem que está se fortalecendo no mundo. Mas é
certo que nossa principal preocupação são os ingressos.
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P: O que o esporte pode fazer para a integração das pessoas com deficiência no Brasil?
R: Depois de ter conseguido, pela primeira vez, transmitir ao
vivo todos os Jogos Paralímpicos de Atenas (em 2004), temos heróis
nacionais. Isso ajudou consideravelmente a modificar a percepção da
sociedade brasileira. Essa nova percepção deve se traduzir em ações
concretas, mas já vejo algumas, como a transformação da rede de
transporte público do Rio. No ano passado, uma nova lei ocupou inúmeros
aspectos da vida das pessoas com deficiência, desde a moradia até o
acesso ao mercado de trabalho, passando pelos transportes. O esporte
olímpico mostrou essas pessoas ao mundo, ao invés de escondê-las. Vejo
os Jogos Olímpicos como um catalisador. O Rio não vai se tornar 100%
acessível [para as pessoas com deficiência]. Nenhuma cidade do mundo é.
Mas a situação melhorou. Quando mostro as lindas imagens do esporte
paralímpico nas escolas, ou comunidades, e lhes pergunto o que veem,
todos respondem: grandes atuações, velocidade, superação (…). Ninguém
menciona a deficiência, porque, nesse contexto, não é importante. O
esporte põe a deficiência em perspectiva.
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P: Os Jogos Paralímpicos perdem o dinamismo, devido ao grande
número de categorias que dividem as competições e as fazem complexas
para o público. Como poderia melhorar esse aspecto?
R: São os mesmo princípios de quando separam homens e mulheres
nos Jogos Olímpicos. Existem também categorias de peso no boxe e no
judô. Claro que sempre podemos tentar simplificar, mas é algo com que os
meios de comunicação devem lidar. Isso não atrapalha o desenvolvimento
da imagem do esporte.
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P: Quais são os objetivos do Brasil nos Jogos Paralímpicos?
R: A quinta colocação na classificação de medalhas, depois de
ter terminado em sétimo, em Londres, e em nono, em Pequim. Mas a
verdadeira referência será ver mais pessoas com deficiência começarem a
praticar esportes. Esse é nosso objetivo final.
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P: Londres marcou a história dos Paralímpicos. O que perdurará do Rio?
R: O feito de organizarmos pela primeira vez os Jogos na
América Latina. É uma parte do mundo onde o esporte paralímpico é
necessário. Em muitos países, os cidadãos que vivem com deficiência têm
um longo caminho para percorrer antes de serem respeitados. Quem tem
deficiência pode ser um bom profissional, um bom chefe, uma boa esposa.
Assim, não podemos dizer a ele “Vou te dar tudo, tem todos os direitos,
mas vou te colocar aqui, em um canto”.
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