No
dia 26 de setembro, foi celebrado o Dia Nacional do Surdo e de acordo com
o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,1% da
população brasileira tem algum tipo de deficiência auditiva.
Em 2010,
Sergipe possuía 3.278 pessoas com surdez total, 20.108 tinham grande
dificuldade e 88.376 têm algum tipo de deficiência auditiva.
Por
muito tempo, esta parcela da sociedade viveu presa a preconceitos e a
margem das políticas sociais. Aos poucos, ela conquista espaços
significativos chegando a postos antes só alcançados por pessoas sem
deficiência.
Há
cerca de oito meses, Breno Nunes, de 23 anos, que é estudante de Letras
Libras encarou o momento de recessão da economia brasileira e abriu uma
gelateria na capital sergipana.
“Realizei meu sonho. Sempre falei para
os surdos que nós podem ser aquilo que desejamos, até ser empresário. O
surdo pode tudo, precisa apenas de conhecimento e oportunidade”,
declarou emocionado.
Antes
de tirar a ideia do papel, ele fez pesquisa de mercado, passou por
cursos e consultorias fora do estado e só então escolheu o negócio.
A
empresa dele não é espaço apenas para ganhar dinheiro e sim quebrar
preconceito, mostrar que ser pessoa surda não é ser incapaz.
“Quero
que a gelateria seja uma marca capaz de representar a inclusão do surdo
de forma produtiva, além de ser meio de integração entre surdos e
ouvintes. Quero quebrar o preconceito em relação à capacidade
empreendedora da nossa comunidade”, pontuou o jovem.
Apesar
da pouca experiência no ramo de administração, Breno aprendeu rápido a
lição do mercado. É ele quem produz, vende e administra o pequeno
negócio que tem dois funcionários. Com o empreendimento ganhando novos
clientes a cada dia, ele já faz planos.
“Atualmente
penso em sempre ter mais pessoas surdas trabalhando comigo e no futuro
quero franquear a abertura de gelaterias em outras localidades”, disse.
Para
a professora e escritora Rita Souza, que tem pós doutorado em inclusão
social, a comunicação ainda é o maior entrave enfrentado pela comunidade
surda no momento de pleitear uma vaga no mercado de trabalho, mesmo
demonstrando ao longo da história que são capazes.
“Eles
têm cada vez mais montado seus próprios negócios porque nem sempre
conquistam espaço no mercado de trabalho, mas têm clareza sobre suas
potencialidades”, afirmou Rita.
Foi
o que ocorreu com Renata Barbosa, 38 anos, que é formada em designer
gráfico e pós graduada em Libras.
“Tive a oportunidade de trabalhar em
uma empresa, porém, os demais funcionários não conseguiram ou não tinham
interesse em interagir comigo”, lamentou.
Há
8 anos ela abriu uma empresa de serviços de fotografia e diagramação de
álbuns. Ela conta que a barreira da comunicação foi superada, mas ainda
enfrenta muito preconceito quando é chamada para fazer um trabalho.
“Nossa
maior dificuldade está nas pessoas confiarem no trabalho da pessoa com
deficiência auditiva. Elas ainda não estão preparadas para lidar com a
gente. Infelizmente estamos longe dessa tão falada inclusão social.
Muito embora, os clientes que já nos contrataram e nos elogiaram como
profissional”, relata Barbosa.
Renata
trabalha com duas pessoas com deficiência auditiva, além de uma ouvinte
que ajuda na comunicação com os clientes interpretando a Língua
Brasileira de Sinais (Libras).
“Na adolescência já havia feito um curso
de fotografia e comecei trabalhando como freelancer para vários
fotógrafos. Depois resolvi trabalhar na área”, contou.
Quem
já se deixou ser fotografada pelas lentes da Renata mostra satisfação
pelo resultado.
“Gostei muito do trabalho dela que fez algumas fotos
minhas e para o jornal do qual sou diretora. Agora, minha filha
contratou os seus serviços da Renata para fazer o ensaio fotográfico dos
20 anos.Quanto
a deficiência não tivemos problema algum e o tratamento foi bem melhor
do que muitos ouvintes. É lamentável que muitas pessoas ainda tenham
preconceito. Renata é uma grande profissional”, declarou a jornalista Aída Brandão.
Organizados
A
comunidade surda da capital de Sergipe mostra-se bastante atuante e
organizada em grupos como o Centro de Surdo de Aracaju (CESAJU), que é
uma instituição sem fins lucrativos, fundada em agosto de 2013,
comprometida com a defesa dos direitos das pessoas surdas.
O
Centro também atua no desenvolvimento intelectual e profissional da
cultura surda através de palestras de motivação e cursos que ajudam na
qualificação e entrada no mercado de trabalho.
Força da Lei
Nos
últimos anos, algumas empresas da Grande Aracaju passaram a desenvolver
programas de inclusão social adotando em seus quadros de colaboradores
pessoas com deficiência.
Muitas motivadas pela Lei 8.213/1991 que
obrigava as empresas com 100 ou mais empregados a destinar de 2% a 5%
das vagas as pessoas com deficiência.
Atualmente,
uma empresa de peças automotivas instalada em Nossa Senhora do Socorro
mantém no quadro de funcionários 80 pessoas com deficiência, sendo 35%
com algum tipo de deficiência auditiva.
Para
reforçar a luta das pessoas com deficiência, em janeiro de 2016 entrou
em vigor no Brasil a Lei 13.146, também conhecida Lei Brasileira de
Inclusão (LBI), que assegura os diretos da pessoa com deficiência.
“Ela
coloca a pessoa com deficiência num nível de respeito. Retira a ideia de
deficiência associada a doença e a põe num patamar da pessoa humana”,
explica o representante do Conselho Nacional da Pessoa com Deficiência,
Beto Pereira.
Antes
dela, a comunidade surda do país já tinha conquistado alguns avanços
que ajudaram no processo educativo e consequentemente abriram portas no
mercado de trabalho.
Em
2002, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) foi reconhecida pela Lei
10.436 como a segunda língua oficial do Brasil e regulamentada pelo
Decreto 5.626 de 2006.