Levantamento
mais recente realizado pela Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação
mostra que, de todas as causas externas, os acidentes de trânsito são os
maiores responsáveis pelas internações nas unidades da Rede (Brasília,
Salvador, Belo Horizonte, São Luís e Fortaleza).
Entre 1º de janeiro e
30 de junho deste ano, eles representaram 44,8% das origens que
motivaram a chegada e permanência dos pacientes nos hospitais. As
agressões por arma de fogo aparecem em segundo lugar e respondem por
21,1%. Depois, as quedas, com 16,3%.
Dados do Ministério da Saúde revelam que os acidentes de
trânsito causaram 161,7 mil internações em todas as unidades de
referência em alta complexidade no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2012.
E o número tem aumentado nos últimos três anos. Em 2011, o Brasil teve
155,7 mil internações e, em 2010, 147,7 mil.
Só em 2011, 42.425 pessoas
perderam a vida no trânsito. E os custos com os tratamentos são cada vez
maiores: em 2010, foram R$ 190,3 milhões, no ano seguinte, R$ 204,6
milhões, e, em 2012, R$ 215,2 milhões.
O atleta profissional da
Seleção Brasileira Paralímpica de Tênis de Mesa Bruno de Paula Peres
Braga, 22 anos, foi uma dessas vítimas.
Em 31 de agosto de 2007, uma
quinta-feira, Bruno, à época tenista de quadra, depois de treinar
durante o dia e a noite, voltava para casa com seu pai por volta de
meia-noite. O pai conduzia o veículo quando adormeceu ao volante (ele
sofre da doença do sono).
O carro se chocou contra uma mureta próxima ao
Aeroporto Internacional de Brasília. O condutor teve três costelas
quebradas e três fraturas no braço. Bruno, que decidiu dormir no banco
traseiro e estava sem cinto de segurança, perdeu todos os movimentos do
corpo. “Só acordei uma semana depois, sem mexer nada”, lembra.
Bruno
ficou internado um mês em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e
depois foi transferido para a unidade centro de Brasília da Rede Sarah,
onde ficou por dois meses e meio.
Em casa, Bruno ficou durante 15 dias,
realizou diversas sessões de fisioterapia e, aos poucos, aprendeu o
cotidiano de uma cadeira de rodas. Depois, ele voltou à unidade da Rede
Sarah e permaneceu por mais dois meses e meio.
Embora, à primeira
vista, a cadeira de rodas possa causar impacto ou rejeição no paciente,
a coordenadora do Programa de Prevenção de Acidentes das unidades de
Brasília da Rede Sarah, Claudia Miani, ressalta que o equipamento não
pode ser visto apenas como uma “perda de movimentos”, mas, em muitos
casos, ela é um sinal de evolução de um quadro que foi muito grave, como
é o caso de Bruno, que ficou tetraplégico.
“A gente pensa que
nunca vai acontecer com a gente. Até acontecer e a gente para pra
pensar”, conta o atleta. Para ele, a irresponsabilidade é a causa da
maioria dos acidentes de trânsito.
“A gente sabe que tem que usar o
cinto, que tem que fazer a coisa certa, mas acaba fazendo a coisa
errada. E, numa dessas, a gente acaba se dando mal“, acredita Bruno.
O
caso do atleta entra no rol do segundo meio de locomoção que mais se
envolve em acidentes.
De acordo com os dados da Rede Sarah, automóvel,
utilitário e caminhonete responderam por 37,8% dos históricos de
pacientes recebidos por aquele hospital envolvidos em acidentes de
trânsito. Em primeiro lugar, estão as motocicletas, com 47%.
Diferentemente
do acidente que resultou na tetraplegia de Bruno, a maioria das
ocorrências com automóveis é nas rodovias (75,7%). Nas vias urbanas, os
pacientes se feriram, majoritariamente, enquanto eram condutores ou
passageiros de motocicletas (47,4%) e bicicletas (48,3%).
O caso
de Bruno também difere da maioria, quando diz respeito a dia, horário e
motivo. Quase a metade (47,6%) dos acidentes analisados ocorreu no
sábado e no domingo. A maioria (54,1%) dos acidentes ocorreu no período
diurno, com picos entre 7h e 8h e entre 17h e 20h. O principal motivo do
deslocamento dos pacientes na ocasião em que ocorreram os acidentes foi
o lazer (53,3%).
Bruno partilha da mesma opinião da maioria dos
pacientes analisados pelo levantamento da Rede Sarah. Para 76,2%, os
comportamentos ou as atitudes humanas foram a causa que originaram os
seus acidentes.
“O meu pai sofre da doença do sono e eu sei disso desde
quando nasci. Eu sempre ia no banco da frente para cutucá-lo e não
deixá-lo dormir. Infelizmente, nesse dia, foi diferente. Eu.sabia que eu
tinha a minha responsabilidade de ir no banco da frente, mas não fui”,
recorda.
Ele conta que foi preciso trabalhar o psicológico do pai para
lidar com a situação e que hoje a família tem uma relação tranquila e
saudável.
Rodovias federais / Cinto de segurança
Dados
mencionados pelo coordenador-geral substituto de operações da Polícia
Rodoviária Federal (PRF), inspetor Estênio Pires, confirmam informações
da Rede Sarah. ”Fizemos um estudo e ele revela que 92% dos acidentes são
ocasionados por falha humana”, afirma.
Para ele, a imprudência
ou a imperícia dos condutores são a principal causa dos acidentes
verificados nas rodovias federais. E a velocidade é a responsável,
segundo o coordenador, pelo maior envolvimento de acidentes de veículos
nas estradas e não nas vias urbanas.
”A velocidade empreendida contribui
para a gravidade da ocorrência, com a probabilidade de maiores lesões
ou fatalidades”, relata.
Pires afirma que o tipo mais grave de
acidente verificado nas rodovias federais é a colisão frontal. “Apesar
de serem apenas 3% dos acidentes registrados, as colisões frontais são
responsáveis por 32% das mortes”, esclarece. Normalmente, esses
acidentes são causados por ultrapassagens indevidas, isto é, imprudência
ou imperícia.
Outra questão para a qual ele chama atenção é o
cinto de segurança. Assim como o para-atleta Bruno de Paula, os
passageiros do banco traseiro não têm muito o costume de usar a
proteção.
Segundo o coordenador da PRF, é diferente do que se constata
nos bancos dianteiros, onde já se tornou hábito da população a
utilização do cinto. ”A gente tem verificado que a gravidade dos
acidentes é maior quando condutores e passageiros não usam cinto ou
capacete, no caso das motocicletas”, afirma.
Segundo Pires, para
cada 100 veículos envolvidos em acidentes nas rodovias federais, um
condutor morre, com ou sem cinto de segurança (não há dados separados).
No caso das motocicletas, para cada 100 acidentes, 12 que usam capacete
morrem. Sem a utilização dos capacetes, o número chega a 55.
A
coordenadora do Programa de Prevenção de Acidentes das unidades de
Brasília da Rede Sarah, Claudia Miani, também alerta para o uso do cinto
de segurança como forma de reduzir as possibilidades de maiores lesões.
Segundo ela, no ano passado, 67,5% dos pacientes admitidos na Rede e
vitimados no trânsito não usavam o cinto na ocasião do acidente. “Ainda
precisamos trabalhar incessantemente em informação, pois precisamos
desconstruir hábitos errados”, propõe.
Para ela, é necessário
transmitir a ideia de vulnerabilidade para que as pessoas se protejam.
“Somos frágeis, então, todos os cuidados devem ser adotados para
preservar nossa integridade física e emocional”, explica.
Informações
da PRF classificam os acidentes também conforme as lesões. Segundo
dados de 2011, informados pelo coordenador Estênio Pires, as lesões
leves correspondem a 67% das vítimas.
As lesões graves, normalmente as
que deixam sequelas para condutores ou passageiros, equivalem a
aproximadamente 25%. “É realmente um número muito grande, quase que se
aproximando a 30 mil pessoas por ano que sofrem consequências graves”,
diz Pires. As vítimas fatais são 8% dos acidentados.
Em números
absolutos, a PRF registrou 192.188 mil acidentes nas rodovias federais,
com 8.661 mortes, 77.626 vítimas com lesões leves e 28.981 vítimas com
lesões graves.
Álcool
Estudo divulgado, no
início deste ano, pelo Ministério da Saúde revela que o consumo de
álcool por pessoas envolvidas em acidentes de trânsito tem forte impacto
nos atendimentos de urgência e emergência do SUS.
O levantamento aponta
que uma em cada cinco vítimas de trânsito atendidas nos pronto-socorros
brasileiros ingeriu bebida alcoólica, o que relaciona a substância a
21% dos acidentes de trânsito.
Entre as pessoas envolvidas nos
acidentes, 22,3% dos condutores, 21,4%, dos pedestres e 17,7% dos
passageiros apresentavam sinais de embriaguez ou confirmaram o consumo
de álcool. Além disso, o estudo conclui que o uso de álcool resulta em
eventos mais graves com mais internações.
Em termos gerais, 78,3% das
vítimas (acidentes de trânsito, quedas, agressões etc) que não ingeriram
bebida alcoólica receberam alta logo após o atendimento de urgência e
emergência. Entre os que beberam, esse número cai para 66,2%.
O
para-atleta Bruno de Paula, nos cinco meses em que ficou internado em
uma unidade da Rede Sarah, viu que a maioria dos pacientes que ali
estava era devido a acidentes de trânsito causados por imprudência ou
ingestão de álcool.
“O álcool é a pior droga que existe porque mata
muita gente no trânsito e, se não mata, lesiona uma pessoa, a deixa numa
cadeira de rodas, com sequelas na cabeça”, acredita Bruno.
O
inspetor da PRF Estênio Pires ressalta também que o álcool contribui
consideravelmente para o maior número e maior gravidade dos acidentes.
Segundo o coordenador, os acidentes mais graves verificados nas rodovias
federais ocorrem principalmente de sexta-feira a domingo, dias em que,
geralmente, ingere-se mais álcool.
“No domingo, inclusive, chega a ser o
dobro do número de mortes registradas numa quarta-feira”, aponta.
Prevenção
Alertar
para os perigos resultantes da imprudência no trânsito é um dos
trabalhos da Rede Sarah. O objetivo é informar os jovens estudantes
sobre o que ocorre no trânsito e despertar a cidadania e o respeito pelo
próximo.
Para isso, são realizados palestras, exibição de vídeos e
animação nas escolas. “Precisamos mostrar a importância do cuidado com a
vida, um bem precioso, que nem sempre teremos uma segunda chance para
voltar atrás e corrigir os atos e comportamentos de risco”, explica a
coordenadora do Programa de Prevenção de Acidentes das unidades de
Brasília da Rede Sarah, Claudia Miani.
Esse
é um pensamento partilhado pelo para-atleta Bruno. “Eu costumo dizer
que a vida é feita de escolhas. Eu não creio que seja o destino que
torna a nossa vida boa ou ruim. A gente pode escrever o nosso destino.
E, para isso, a gente tem que fazer as escolhas, certas ou erradas.
Dependendo disso, as consequências virão. Você tem que optar pelos
caminhos que você quer trilhar na sua vida. Você que trabalha no
trânsito, com entrega, com carro, pensa um pouquinho, tenha um pouquinho
de paciência, ajude o próximo. Costumo ver no trânsito, em alguns
carros, o adesivo “gentileza gera gentileza”.
Se cada um fizer o seu
pouquinho, todos nós temos a ganhar. E só melhora o trânsito e a vida em
si”, acredita.