Poderia ser apenas mais um curso de fotografia. Adolescentes que agora
têm a câmera como extensão de seu olhar e que mostram ao povo de
Curitiba (PR) sua arte a partir deste mês de agosto. Mas desta vez são
nove novos fotógrafos que fizeram parte de um grupo especial: a primeira turma de um projeto de inclusão que reuniu pessoas
com deficiência intelectual e outras sem deficiência.
O projeto Fotografia para Adolescentes, realizado pela
Lei Municipal de Incentivo a Cultura, através do Mecenato subsidiado e
incentivado pela Volvo, mostra seu resultado a partir de hoje (3/08) no
Café do Top do Shopping Müller com a exposição Encontros e Olhares.
Na data, cada um dos participantes terá uma de suas produções,
realizadas ao longo do curso, exposta. “Tinha a fotografia como
brincadeira. Acho legal expor porque não é sempre que se tem uma
oportunidade desta: de mostrar nosso trabalho e participar de uma
exposição”, afirma Gabriela Peratello, 15 anos.
O curso durou um semestre e a fotografia tomou outro status ao longo
das aulas: o de instrumento de relação social com o mundo externo.
“Através desse trabalho foi possível perceber a importância da foto na
construção do indivíduo como um todo”, acredita a fotógrafa e
coordenadora pedagógica do projeto, Michelle Serena. Ela, que há 13 anos
trabalha com fotografia, deu o primeiro passo para um projeto que
promete durar muito tempo.
A expectativa é que agora que o projeto foi
iniciado, ele não pare tão cedo. “Esta foi uma experiência
transformadora. Como foi o primeiro projeto e deu muito certo, mostrou
que deve ter uma proposta maior, uma continuidade”, afirma a fotógrafa.
Para a psicóloga que atende alguns dos participantes com Síndrome de
Down, Maria Isabel Valente, o projeto proporcionou aos adolescentes,
crescimento pessoal, profissional e social. “Eles descobriram a
fotografia, agora tem propriedade e conhecem as técnicas, podem fazer
isso profissionalmente. Foi importante ainda para as pessoas olharem e
perceberem que não existe uma limitação: eles podem ir muito mais longe
se orientadas e ensinadas como qualquer outra pessoa”, esclarece.
Reconhecimento
Unir em uma turma pessoas sem e com deficiência poderia ser difícil,
mas não foi o que aconteceu. “No começo havia uma preocupação, pois
nunca havia trabalhado com adolescentes, e nem com pessoas com
deficiência intelectual”, conta Ulisses Segatto, instrutor de fotografia.
Porém, o que os adolescentes desenvolveram superou as expectativas. “O
que falta de técnica, eles compensam com o olhar”, avalia.
Como a proposta era de inclusão, o grupo dividiu dúvidas e
aprendizados, além de experiências. “Enxergamos que houve uma evolução
em termos de relações, elas foram ficando cada vez mais fortes. O olhar
eles desenvolveram igualmente, a técnica cada um ao seu tempo”,
esclarece a coordenadora. Para Gabriel Fiori, 17 anos, além de
importante, o curso proporcionou a convivência entre as diferenças. “E
foi um aprendizado, uma experiência que eu não vou esquecer”.
Além de possibilitar que os adolescentes ampliassem seus repertórios, a
convivência entre pessoas com deficiência e sem foi um dos aprendizados
mais importantes. Entre as oficinas no estúdio com diferentes técnicas,
como Light Painting e de edição, eles saíram às ruas, capturando o seu
olhar sobre o mundo e suas casas, aniversários, passeios com as
famílias, mostrando aos outros o seu mundo. “A turma era coesa, isso
fortaleceu o vínculo com os outros. Eles terem essa visão de sociedade e
as pessoas terem a visão deles como capazes é muito importante”, lembra
Débora Gaid, mãe de João Felipe, 16 anos, com Síndrome de Down.
Exposição
Encontros e Olhares, no dia três de agosto será a exposição oficial do
grupo. Antes do evento, familiares e amigos puderam conhecer um pouco do
trabalho realizado durante o projeto. A formatura aconteceu no dia nove
de julho, na Escola Portfólio de Fotografia, onde cada participante
mostrou dez de suas produções.
“Este projeto coloca a fotografia como
instrumento de relação social com o mundo externo e, em alguns casos,
até como profissão. Esse foi o primeiro diploma para muitos deles”,
esclarece Michelle. Laura Negri, 22 anos, com Síndrome de Down, concorda
e afirma: “Com a formatura, nossa posição vai ser mais importante”.
Para a mãe de Laura, Mônica Negri, o aprendizado foi percebido no
cotidiano, quando a filha utilizava a máquina fotográfica fora do curso.
Ela acredita que o diferencial do projeto foi dar a oportunidade de
aprender profissionalmente. “O que nós, pais, queremos é que os cursos
atendam e acolham a pessoa com deficiência entendendo ele como capaz,
sem nenhum tipo de diferenciação”, explica.
Exposição Encontros e Olhares
Direção: Michelle Serena
Valor do Ingresso: gratuito
A partir de 3 de agosto até 01 de setembro
Local: Café do Top – Shopping Muller
Endereço: Avenida Cândido de Abreu, 127 – Centro Cívico | Piso Cinemas
Telefone: (41) 3074-1000
Em 25 de agosto - Durante o III Mutirão do Instituto Robert Bosch
Local: Escola Municipal Dario de Castro Velloso
Horário: 9h às 17hs
Endereço: Rua Des. Cid Campelo, 4.630 – Vila Barigui / CIC
Em 21 de setembro - Dia Nacional da Pessoa com Deficiência
V Reatiba – Inclusão da Pessoa com Deficiência no Mercado de Trabalho
Local: CIETEP
Horário: 9h às 17hs
Endereço: Av. Comendador Franco, 1341, no Jardim Botânico.