30 de abr de 2016

“Para mim é um grito de liberdade”, diz homem com deficiência visual ao defender cães-guias




Quem esteve na avenida Paulista na última quarta-feira (27), em São Paulo, pode ter se deparado – e ficado encantado – com a “Cãominhada”, um ato simbólico que chama a atenção para a inclusão das pessoas com deficiência visual na sociedade e pede mais direitos e respeito à legislação que garante o livre acesso de cães-guias a estabelecimentos, meios de transporte e locais públicos.


Com nove cães-guias e seus respectivos condutores, o evento fez sucesso. Algumas pessoas chegavam a recusar, de cara fechada, os panfletos da manifestação, mas mudavam de humor ao ver os cães.


Só que para quem pensa que o grupo não tem motivo para protestar, o atual cenário brasileiro mostra que há razões sim. 


O país possui 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, 582 mil cegos e 6 milhões com baixa visão, de acordo com o Censo 2010 conduzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 


E dentro deste número, apenas 100 cães-guias servem à população que sofre com a deficiência visual, de acordo com o instituto IRIS (Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social), que organizou o evento.


O grande déficit se dá em parte por conta do custo e da dificuldade em se treinar o cão-guia. 


Segundo Thays Martinez, presidente da IRIS, a capacitação dos cães da instituição é feita em parceria com profissionais norte-americanos e, por conta disso, é um processo demorado. 


“A formação requer investimento, cuidados especiais e é um trabalho que só pode ser executado por profissionais especializados”, afirma.


A própria Thays tem deficiência visual e conta que a transformação que o cão-guia traz é impressionante. 


“O que um cão-guia promove na vida de um cego é incrível. Tanto que costumo dizer que divido minha vida em antes e depois do Boris, meu primeiro cão-guia. Eles nos permitem caminhar com muito mais segurança, liberdade e autonomia. Hoje, estou com meu segundo cão-guia, o Diesel, e não consigo me imaginar ficando sem o auxílio e a companhia desses seres iluminados”, explica.

União inexplicável



Aos 34 anos, Rafael Braz, instrutor no Senai-SP, é uma dessas pessoas com deficiência visual que contam com o auxílio de um cão-guia, no caso, o Ozzy, que tem 5 anos e 3 meses, mas está com ele há quase três anos. 


“Ele é mais do que meus olhos. É minha vida, meu companheiro, meu amigo, pai, filho. Ele é tudo.”, conta sem economizar nos elogios.


A relação deles mostra a importância do animal na vida de Rafael. “São dois que se formam um”, diz ele, explicando que o perfil do condutor, dono do cão, é muito compatível com a personalidade do animal. 


“Um depende do outro. Um precisa do outro para comer, para andar, etc. É o encaixe perfeito de uma necessidade em comum. Eu só tive a sensação do vento batendo em meu rosto, quando saí, livre, com o Ozzy. Um amigo para conversar na caminhada, não ficar solitário”.


E foi pensando no Ozzy que Rafael participou da “Cãominhada”.Para ele, é a população reivindicando os direitos de seus cães. 


“Para mim é um grito de liberdade. Um pedido de direito para os cães-guia. Ainda existem descriminação com o cão guia, eles precisam trabalhar em paz. Ainda há lugares em que o cão não pode entrar em paz, sem ser barrado, mas não deveria existir. Principalmente, táxis, ubers e ônibus”.

Campanha


Além da “Cãominhada”, a instituto IRIS também montou uma campanha de arrecadação online para ampliar o número de pessoas que precisam de cães-guias no país.


O projeto permitirá a doação de cães-guias a brasileiros cegos, além de custear o treinamento dos animais, que chega a R$ 35 mil por cachorro. 


Ambos precisam viajar para os Estados Unidos para um período de treinamento conjunto.


“São 26 dias de capacitação de condutores com os novos cães-guia, um treinamento que tem o objetivo de adaptar ambos a uma nova rotina. Nesse período, um instrutor brasileiro ministra aulas, em português, que incluem conhecimentos sobre cuidados diários com os cães, trajetos (em cidades e zona rural) e condução”, conta Thays.

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Campanha: Quanto vale o seu olhar?



Organizador: Instituto IRIS (Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social)

Causa:
Treinar e doar cães-guias para pessoas com deficiências visuais
 
Como contribuir: Doando a partir de R$ 20 pelo site da campanha no Kickante
 

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