4 de ago. de 2015

Não é demência, é seu remédio para o colesterol

 


O ex-astronauta Duane Graveline, da Nasa, voltava para casa, em Merritt Island, na Flórida, depois de uma caminhada numa manhã de 1999 quando, de repente, percebeu que não conseguia lembrar onde estava. Graveline, na época com 68 anos, cumprimentou sua mulher, na frente da casa deles, como se ela fosse uma estranha. 


Quando sua memória voltou, cerca de seis horas depois, ele se perguntou o que poderia ter provocado aquele surto de amnésia. Só uma coisa lhe veio à mente: poucos dias antes ele tinha começado a tomar um remédio à base de estatina.

A substância que baixa os níveis de colesterol, é usada em alguns dos medicamentos mais prescritos no mundo com esse propósito – e já salvou a vida de muitos pacientes cardíacos. 


Entretanto, recentemente um pequeno número de usuários tem apresentado inesperados efeitos colaterais no campo da cognição, como perda de memória, confusão mental e dificuldade de aprendizagem.

Centenas de pessoas já se queixaram das estatinas à MedWatch (a base de dados da Administração de Controle de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos), mas poucos estudos sobre o tema foram realizados até agora. 


Vários especialistas, no entanto, acreditam que uma pequena parcela dos usuários corre risco. Ainda assim, é importante alertar o público sobre possíveis efeitos colaterais da estatina que podem ser confundidos com sintomas de demência em pacientes idosos.

Não é absurdo relacionar essas drogas à cognição, já que um quarto de todo o colesterol  do organismo se encontra no cérebro. 


Sua textura é semelhante à da cera, que tem, entre outras funções, ajudar a formar a estrutura das membranas celulares. 


Níveis elevados aumentam o risco de doenças cardíacas porque as moléculas que transportam o colesterol podem danificar artérias e bloquear o fluxo sanguíneo. 


O colesterol desempenha papel fundamental na formação de conexões neurais – ligações vitais que constituem a base da memória e da aprendizagem. 


O raciocínio rápido e a reação imediata também dependem do colesterol, pois essas moléculas funcionam como “tijolos”, formando o revestimento que isola os neurônios e acelera a propagação de sinais elétricos. 


“Não entendemos como uma droga que age num percurso tão importante não teria reações adversas”, comenta Ralph Edwards, ex-diretor do Centro de Monitoramento de Drogas da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Uppsala, na Suécia.

Testes publicados pelo farmacologista clínico Matthew Muldoon, da Universidade de Pittsburgh, sugerem relação entre estatina e problemas cognitivos. 


Um deles, realizado com 209 participantes com altos níveis de colesterol, mostrou que pessoas que ingeriram pílulas de placebo tiveram melhor desempenho em testes de atenção e de tempo de reação medidos durante seis meses do que os voluntários que tomavam estatina. Eles se saíram melhor provavelmente em razão da repetição de exercícios, como geralmente ocorre.


Outro estudo, realizado com 60 usuários de estatina que relataram problemas de memória, publicado no periódico científico Reviews of Therapeutics, revelou que mais da metade afirmou que os sintomas melhoraram quando pararam de ingerir o medicamento.


Muitos especialistas concordam que para a maioria das pessoas o risco de usar estatinas é pequeno. 


Os efeitos adversos, porém, parecem consideráveis. Alguns pesquisadores acreditam que as vítimas têm perfil genético que as predispõe ao risco. 


A médica Beatrice A. Golomb, professora da Universidade da Califórnia, em San Diego, sugere que pacientes com defeitos nas mitocôndrias (estruturas celulares que produzem energia) podem formar um grupo de risco. 


A estatina impede que o organismo produza um antioxidante capaz de neutralizar a ação prejudicial dos radicais livres criados pela atividade mitocondrial. 


Se as células do cérebro, que consomem grandes quantidades de energia, já tiverem problemas, a terapia com estatinas poderá potencializar danos, causando, por exemplo, o comprometimento da aprendizagem.

A teoria de Golomb foi reforçada por um estudo coordenado pela geneticista Georgirene Vladutiu, da Universidade de Buffalo. 


Ela observou que usuários de estatinas que relataram efeitos colaterais como dores musculares estão mais propensos a apresentar falhas genéticas preexistentes relacionadas à produção de energia celular. 


Curiosamente, porém, alguns estudos também sugerem que as estatinas parecem melhorar a memória de algumas pessoas, diminuindo o risco de demência. 


Esse efeito benéfico surge porque o colesterol está envolvido na produção de proteínas indicadoras de doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Ou seja: mesmo que a estatina seja neurologicamente vantajosa para alguns ela pode ser problemática para outros, visto que os efeitos colaterais provavelmente surgem devido a variadas reações bioquímicas.

Como as estatinas têm fórmulas diferentes, é possível que interfiram em inúmeros processos mentais, e, como os usuários têm diferentes predisposições genéticas, a simples troca de medicamento pode ajudar aqueles que estão recebendo sinais de alerta, como esquecer nomes de pessoas conhecidas e até próximas com muita frequência. 


Em um estudo de 2009 publicado no periódico Pharmacotherapy, Golomb e Marcella A. Evans, aluna de pós-graduação da Universidade da Califórnia em Irvine, analisaram as características de 171 usuários de estatina que relataram prejuízos à cognição. 


As descobertas parecem indicar que pessoas que utilizam estatina mais potentes correm risco maior do que as que tomam drogas mais fracas.

Graveline, hoje com 84 anos, tem certeza de que seu remédio provocou o surto de amnésia. 


Embora tenha parado imediatamente de tomar a medicação, seu médico – que não acredita nesta tese – convenceu-o, meses depois, a fazer nova tentativa. 


Após oito semanas de tratamento Graveline sofreu um novo surto de amnésia e abandonou completamente a estatina. Até hoje o ex-astronauta, que controla o colesterol com dieta, garante que nunca se sentiu tão bem. 


Mas ele também sabe que para muitas pessoas os benefícios que a estatina proporciona superam os riscos. 


“Não estou pedindo que essa substância seja banida, apenas sugiro que os médicos estejam cientes de seus efeitos colaterais sobre o cérebro.”



Reportagem: Melinda Wenner

 
 
 
 

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