30 de set de 2014

Surdo e intérprete se casam e lutam para a inclusão social de pessoas com deficiência

Foto do casal Flávia e Everton sorrindo



Eles se encontraram pela primeira vez em uma roda de samba, ao acaso. Juntos há 14 anos, não faltam boas razões para que o casal Flávia Luciana da Silva Garcia, de 38 anos, e Everton Benedito Garcia, de 33 anos, permaneça unido. 


Dois anos depois do primeiro encontro, eles se tornaram colegas de trabalho. Flávia, na época, era fonoaudióloga voluntária em um projeto que atendia pessoas com deficiência em Piracicaba (SP)


Mais tarde, Everton -- que é surdo -- também começou a apoiar a iniciativa como intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras)


Atualmente, são pais de dois filhos e lutam por meio de projetos pela inclusão social de pessoas com deficiência, principalmente os surdos, cujo dia nacional foi lembrado nesta sexta-feira (26).


No início do relacionamento, Flávia se especializou em Libras para se comunicar com Everton. "Começamos a namorar em 2000. Fui aprendendo cada vez mais sobre a cultura e a identidade surda, além de me tornar fluente em Libras", disse Flávia. 


O engajamento que cada um tinha pela causa das pessoas com deficiência mesmo antes de se conhecerem fez com que se aproximassem mais. "O amor de amigo se transformou em amor e admiração de homem e mulher", disse a fonoaudióloga.


Casados há 11 anos, o respeito e a admiração pela capacidade de superar limites fizeram com que, além de parceiros de trabalho, se tornassem companheiros na vida e nas ações pelos direitos e inclusão da pessoa com deficiência. Hoje, ambos atuam como intérpretes e instrutores de Libras.


O casal tem dois filhos ouvintes, Pedro, de 8 anos, e João, de um ano e nove meses. O mais velho conhece a Língua Brasileira de Sinais, se comunica com os pais nos dois idiomas e até ensina os colegas na escola. 


"Pedro sabe Libras muito bem. O João está construindo o conhecimento, mas já entende muita coisa e começa a reproduzir o que aprende em casa", orgulha-se a mãe.


Com a ajuda de intérprete, Everton contou ao G1 as dificuldades que viveu para se inserir na sociedade antes de aprender Libras. 


"Antigamente eu não conhecia nada, não entendia das leis e direitos da pessoa com deficiência. Minha vida se limitava a passeios e festas, não me desenvolvia profissionalmente”, lamentou. 


Formado no curso de instrutor de Libras, Everton assumiu, neste ano, cargo efetivo em sua área de atuação na Prefeitura de Piracicaba. Para ele, a maior barreira que impede a inclusão de surdos na sociedade é a falta de comunicação.


Flávia e Everton alertam para a importância da presença de instrutores e de intérpretes no ensino regular e enaltecem iniciativas realizadas em parceria com organizações não-governamentais e o poder público. 


"Temos que lembrar que a inclusão não acontece só na escola, ela precisa acontecer em todas as esferas da vida da pessoa, no trabalho, no social, em atividades artístico-culturais, tudo isso é importante", disse Flávia.


No dia 21, o casal participou de uma visita orientada em Libras à exposição da 12ª edição da Bienal Naïfs 


"O Santuário refletido no espelho e em multi-telas", com curadoria de Diógenes Moura, em cartaz no Sesc Piracicaba.


A atividade, que nesta primeira realização em parceira com o Centro de Assistência de Referência à Surdez (Cersurdo) reuniu cerca de 40 visitantes surdos, integrou a programação da Semana de Luta da Pessoa com Deficiência em Piracicaba.


A Semana de Luta da Pessoa com Deficiência de Piracicaba teve início no dia 15 de setembro e seguiu até a última sexta-feira (26) com atividades culturais, visitas guiadas com recursos de tradução em Libras e exposições, entres outras atividades. O evento, inédito em Piracicaba, foi instituído pela Lei Municipal 7.195/2011.


"A iniciativa é de grande importância para demonstrar que a pessoa com deficiência tem toda condição de se inserir na sociedade. Procuramos fazer uma programação bem diversificada, com atividades esportivas e artístico-culturais para mostrar que a pessoa com deficiência pode estar presente em todos os setores da sociedade", disse Wander Vianna dos Santos, do Conselho Municipal de Proteção, Direitos e Desenvolvimento da Pessoa com Deficiência (Comdef).
 

Até 9 de novembro
 

Exposição “Um museu feito para nós, por nós”, com trabalhos de 15 deficientes auditivos e visuais. Local: Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes (Rua Santo Antônio, 641, Centro)


Fonte: G1


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