31 de jul de 2013

Família deve facilitar rotina de crianças com nanismo, diz advogada

Kênia faz pose ao lado de sua cozinha adaptada
Kênia Rio, 47, é advogada e mora no Rio de Janeiro. Tem um filho de 24 anos, Frederico, e acaba de ser avó. 


Com pouco mais de três meses, seu neto, Bernard, já é o xodó da casa. Vaidosa, Kênia capricha na maquiagem e dá um jeito nos cabelos antes de tirar foto.


Kênia tem nanismo. Ela mede 1,25 m, abaixo da estatura média da mulher brasileira, de 1,60 m. 


Mas a baixa estatura não a impediu de realizar grandes feitos. Desde 2009, ela é presidente da Associação de Nanismo do Estado do Rio de Janeiro, a ANAERJ, e luta pelos direitos das pessoas com nanismo. 


A causa é bem próxima a ela, pois além do seu próprio caso, seu pai tinha nanismo e seus irmãos, sobrinhos, filho e neto, também.


Em entrevista realizada pela "Jornal Folha de S.Paulo - Folhinha", Kênia falou sobre sua experiência como uma criança com nanismo, a dificuldade de achar sapatos e roupas do seu tamanho e o que pensa dos programas de humor que fazem piada com anões.


Folha - Qual a maior dificuldade que você enfrentou quando criança?
 

Kênia - Venho de uma família em que já havia pessoas com essa deficiência. Meu pai e meus irmãos também tinham nanismo. Eu tinha um espelho dentro de casa. Se tive dificuldades, não consegui visualizar, foram todas superadas. Fora de casa, o preconceito tem várias camadas, é velado. A gente percebia os olhares curiosos e quanto mais elitista, menos escancarado. Por exemplo, eu era a menininha que não tinha namorado, mas ninguém dizia que não queria me namorar por que eu era anã. Eu era a amiga dos meninos, mas não tinha namorado. Tem uma fase nossa horrível, na adolescência, em que a gente ouve muito "não". Eles começam a perceber que o "não" é pela questão do tamanho, de ser anão. Sempre falei para o meu filho batalhar pelo "sim", por que o "não" já era certo.


O que mais te incomoda na forma como as pessoas com nanismo são retratadas na sociedade?
 

Aquela figura de que anão é associado a circo. Não tenho nada contra quem trabalha com o mundo do teatro e do circo, mas acho que isso não tem que ser a regra. A sociedade tem que nos respeitar e ver que tem grupos que gostam de trabalhar na área circense e tem grupos que preferem trabalhar como profissionais liberais, engenheiros, advogados, dentistas.

Quais foram as adaptações que você fez em sua casa?
 

No meu caso específico, eu criei uma independência dentro de casa, porque eu não sou a única pessoa com nanismo ali. Quis facilitar a minha rotina. As famílias que têm uma criança com nanismo devem tentar facilitar a rotina delas, mostrando que elas também fazem parte daquela casa. Adaptar o maior número de cômodos possível. Por exemplo, nos banheiros, colocar uma pia mais baixa e uma torneira com alavanca.

É difícil encontrar roupas e sapatos do seu tamanho?
 

No meu caso, tenho um encurtamento nas pernas e nos braços, mas o tronco é de uma pessoa de estatura normal. Então, quando vou numa loja de roupas, escolho pelo meu tamanho e ajusto os braços e pernas. Já sapato é muito difícil. Existem pouquíssimas lojas que produzem sapatos para a gente. Quando eu encontro, compro logo três ou quatro iguais, só mudo as cores. É complicado, fico limitada. A sociedade não tomou conhecimento de que existe esse pequeno grupo e que nós somos consumidores.

O que você acha dos programas de humor que usam pessoas com nanismo para fazer piada?
 

Sou super contra. Por que parece que o nosso trabalho é em vão. Acho que a gente tem que se respeitar, antes de mais nada. Tem programas de humor que fazem até agressões, jogam o cara para um lado, para o outro, e não percebem que isso vai refletir na gente aqui fora. Se a televisão tá mostrando que é normal um comediante jogar um anão na parede, a gente vai sofrer aqui fora, porque vai ter um irresponsável que pega uma criança com nanismo e faz o mesmo. Quantas crianças com nanismo não sofreram com aquela brincadeira do "pedala, Robinho"?


Foto: Luciana Whitaker/ Folhapress 

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