A Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (FAPESP) assinou, no dia 20 de agosto, um acordo de cooperação científica com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo (APAE-SP) para apoiar projetos de pesquisa sobre deficiência intelectual
– caracterizada por limitações no funcionamento intelectual e do
comportamento que são detectadas ao nascer ou durante a infância e a
adolescência por meio de testes apropriados.
O acordo prevê a seleção de até quatro projetos em temas relacionados à deficiência intelectual – como genética e biologia molecular,
cognição e desenvolvimento, imaginologia cerebral e neonatologia e
triagem neonatal –, que serão desenvolvidos no Instituto APAE de São
Paulo de Pesquisa e Formação.
Os projetos de pesquisa serão realizados no âmbito do Programa Jovens
Pesquisadores em Centros Emergentes, lançado há 15 anos pela FAPESP para
apoiar a criação de novas linhas de investigação e a formação de novos
grupos de pesquisa em temas emergentes e ainda não suficientemente
explorados por cientistas atuantes no Estado de São Paulo.
O programa, que já apoiou mais de 1,2 mil cientistas do Brasil e do
exterior para realizar pesquisas em instituições no Estado de São Paulo,
oferece o financiamento necessário para que o pesquisador desenvolva
seu projeto.
De modo a selecionar os quatros pesquisadores, a FAPESP e a APAE-SP
farão uma chamada de propostas e publicarão anúncio nas principais
revistas científicas internacionais convidando pesquisadores de todo o
mundo a inscrever projetos na área.
Os projetos inscritos serão submetidos à análise de propostas da
FAPESP, que é baseada no mérito científico e utiliza revisores externos e
análises de comitês científicos para embasar suas decisões.
As propostas aprovadas serão apreciadas por um comitê gestor, formado
por representantes da FAPESP e da APAE-SP, que indicará os quatro
projetos finalistas que iniciarão o programa de pesquisa.
“Este acordo científico entre a FAPESP e a APAE-SP possibilita colocar a
ciência a serviço daqueles que necessitam que o conhecimento sobre a
deficiência intelectual seja aprofundado e aprimorado”, disse Celso
Lafer, presidente da FAPESP.
“O acordo também possibilita à FAPESP uma interação com o chamado
terceiro setor em uma matéria de grande relevância na agenda social do
nosso país, estado e município, que é a inclusão social, que permite o
empowerment da cidadania, traduzido de modo mais preciso como dar as
pessoas acesso pleno à vida e à cidadania”, disse Lafer.
Na avaliação de Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da
FAPESP, o acordo também permite à Fundação realizar uma ação que a
instituição tem se engajado intensamente nos últimos anos, que é a de
criar uma conexão entre a atividade e aplicação da pesquisa.
Além disso, também possibilitará à FAPESP superar um de seus desafios, que é o de encontrar instituições no Estado de São Paulo onde os pesquisadores possam ser alocados para realizar suas pesquisas.
“Um dos desafios para a ciência e tecnologia no Estado de São Paulo é
aumentar o número de pesquisadores e de instituições envolvidas com
pesquisa”, disse Brito Cruz.
“A pesquisa hoje no Estado de São Paulo está muito concentrada em
universidades e institutos de pesquisa, e é bom que ela ocorra mais
perto do lugar onde é necessária. Isso sem nenhum demérito para a
pesquisa universitária, que é muito importante. Mas ambas são
essenciais”, disse.
Desafios científicos
Alguns dos principais desafios na pesquisa sobre
deficiência intelectual no Brasil, apontados por especialistas presentes
na cerimônia de assinatura do acordo, é conhecer melhor as causas e
frequência da deficiência intelectual no país.
Mais associada a causas genéticas, como a síndrome de Down, a
fenilcetonúria e o hipotireoidismo congênito, a deficiência intelectual
tem diversos outros fatores pré, peri e pós-natais.
Alguns deles, como o uso de drogas, álcool e tabaco durante a gestação,
são bastante prevalentes no Brasil. Entretanto, de acordo com os
pesquisadores da área, as estatísticas sobre o número de pessoas com
deficiência intelectual no país estão subestimadas.
“Não temos dados claros sobre qual o tamanho do problema da deficiência
intelectual no Brasil”, disse Felipe Clemente dos Santos, membro do
conselho de administração da APAE-SP e neto do médico Antonio dos Santos
Clemente Filho, que fundou a APAE há 51 anos e faleceu no início de
2012.
“Uma das estatísticas indicam que 1,3% da população brasileira tem
deficiência intelectual. Mas, quando comparamos esse número com outros
países, é possível perceber que ele está altamente subestimado”, disse
Clemente.
Outros desafios científicos na área são aprimorar os exames
neurológicos neonatais para possibilitar detectar as causas da
deficiência intelectual e tentar diminuir os efeitos deletérios de perda
neuronal ou de alteração de circuitos no cérebro de pacientes com
deficiência intelectual.
Além disso, segundo Esper Abrão Cavalheiro, professor titular do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente do Conselho Científico do Instituto Apae de São Paulo,
também é preciso compreender melhor o processo de envelhecimento das
pessoas com deficiência intelectual, que passaram a viver cada vez mais
nas últimas décadas.
“Até o século passado se acreditava que as pessoas com deficiência
intelectual morressem cedo, mas elas também se beneficiaram de todo o
avanço que ocorreu na medicina nas últimas décadas e estão chegando hoje
aos 50 ou 60 anos”, disse Cavalheiro.
“É preciso saber se eles envelhecem e apresentam as mesmas doenças na
velhice que as pessoas sem deficiência intelectual. Nós sabemos que eles
possuem algumas particularidades, como ter mais obesidade e
hipertensão. Porém, ainda não conhecemos exatamente quais as causas”,
disse.
Cavalheiro também ressaltou que é preciso desenvolver políticas
públicas voltadas para planejar a velhice das pessoas com deficiência
intelectual e proporcionar os cuidados de que necessitam, dado que nesta
fase é comum os pais ou parentes próximos que cuidavam deles já terem
falecido ou estarem bastante idosos.
“Isso representa um problema social.
O país precisa se preparar para
proporcionar os cuidados de que essas pessoas necessitem e não realizar
uma inclusão social apenas nominal, mas que de fato resulte em uma
melhor qualidade de vida para as pessoas com deficiência intelectual”,
afirmou.
O acordo de cooperação entre FAPESP e APAE-SP está disponível em: www.fapesp.br/7165.
Fonte: Agência FAPESP
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